Eu sou um daqueles carinhas que adora aqueles filmes menos convidativos possíveis, aqueles que nunca chegam nas megas salas de cinemas espalhadas pelos shoppings ou aqueles filmes quase que experimentais, com diretores novos e que mesmo com poucos recursos conseguem transmitir emoções e estorias tão boas quanto as produzidas nos mirabolantes estúdios Hollywoodianos.
No início do ano passado, fui a um cinema que eu, particularmente, adoro aqui em belém o Cine Líbero Luxardo. Ainda não sabia exatamente o que iria assistir. Quando cheguei próximo a bilheteria, passei os olhos nos cartazes dos filmes que seriam exibidos, lembro que um deles era o do filme "Azul é a cor mais quente" E que ficaria para uma outra hora, já que havia perdido o horário de exibição. Continuei olhando e lá estava, um cartaz bem bonito, em tons de azul piscina e celeste, com algumas plumas e o titulo escrito em vermelho sangue anunciava "Tatuagem". Um filme nacional, com produção pernambucana e ambientada em Olinda-Recife e cabo de santo Agostinho, um filme lindíssimo, dirigido por Hilton Lacerda, roteirista de filmes como "Filmefobia","Amarelo Manga" e outros.
Tatuagem era então o primeiro longa de ficção que havia dirigido, e que grande estreia! Um filme que se passa em meio a ditadura e conta a estoria de um grupo de artistas que se apresentam em um teatro/cabaré que se localiza na periferia da cidade e provocam, num claro sinal de esgotamento, o poder e a moral, sempre levantando questões sociais ensaiando a resistência política com anedotas intelectuais e anarquia, além de seu grupo marcante de homossexuais e a visão desse momento histórico de nosso país sob um olhar periférico. O grupo "chão de estrelas" como é conhecido, é uma imagem da mistura de artistas e intelectuais do final da década de 70 e início de 80.
Os espetáculos e as interferências públicas é liderado por Clécio Wanderley (Irandhir Santos), que muda completamente de vida ao conhecer Fininha (Jesuíta Barbosa) um soldado de 18 anos que presta serviço militar na capital, uma paixão que "nos lança para o futuro, como tatuagem: marca que carregamos junto com nossa história" o filme deixou uma frase martelando em minha cabeça e considero o grande estandarte desse longa"No futuro o amor e a liberdade serão como num filme" é com certeza um filme incrível, adoro a fotografia usada no filme, direção muito bem feita, roteiro bem escrito e com uma trilha sonora incrível que vai de Gal Costa a Johnny Hooker, e que surpresa o conhecer.
Hooker é cantor, compositor, ator, diretor e mais mil e uma coisa, tem uma voz marcante, um estilo que passeia por David Bowie e Ney Matogrosso, tem uma presença incrível além de um talento indiscutível, aclamado por grandes críticos. No filme é impossível não ficar com aquele brega, com influencias rock na cabeça, aquele sonzinho que parece tocar em qualquer bar de "beira de vala" aquela melodia melancólica, que traz sentimentos comuns na letra e que é interpretada com uma lagrima na garganta, o que é popularmente chamado hoje de "sofrencia" e é visto como algo inédito, grandes nomes do brega já o faziam muito antes e é isso que Hooker trás, talvez o verdadeiro sentido de "sofrencia" em "Volta".
Quando eu finalmente dei uma imagem para aquela voz que me invadia e que cantava "Volta que eu perdoo teus caminhos, teus vícios, que eu volto até o início te carregando mais uma vez de volta do bar" Eu pude entender o porquê aquilo não saia da minha mente, foi paixão a primeira vista, além de todos os atributos já citados o cara é mega performático, no clipe, com a música do filme, consegue representar de um jeito simples e lindo o que a letra nos conta, eu me tornei um caçador de Hooker, conheci algumas músicas do álbum intitulado "Vou fazer uma macumba pra te amarrar, maldito" como "Amor Marginal", (Música que fará parte da trilha sonora da nova novela da rede globo, Babilônia) é uma canção visceral que entre poesia, sussurros e gritos nos conta sobre a partida de um amor, deixado a beira do caminho. e de forma a transformar o "trash", o imoral e pecaminoso em algo poético sensível, nos convence que amor é amor, independente se for amor amigo, romântico, diferente ou até marginal.
"Alma Sebosa" É a minha predileta, devo confessar. Que letra simples, vulgar e incrivelmente verdadeira. É um tapa na cara daquele amor cafajeste. Ouvindo Hooker é quase que uma revolta cantada, numa mistura de amor e ódio, é o mais autentico hino do chamado " a volta por cima" um bolero dançante e envolvente, música de boteco. Tudo aquilo considerado como cultura de massa, trash, música de periferia, brega, cafona Hooker consegue transformar em verdadeiras obras de arte e é isso que acho incrível nesse cara, a sua capacidade de juntar dois mundos diferentes e se tornar original sobre as duas óticas.
Seu som é cult? Brega? Punk-Rock? eu tenho a resposta: Seu som é Hooker, Johnny Hooker. Uma das minhas melhores surpresas musicais do ano passado, tenho certeza que Johnny Hooker ainda será muito falado e depois muito lembrando, ficara sua marquinha por muitas décadas. Um artista efêmero que entre tantas mudanças define sua persona, como disse Carpeggiani "Temos aqui um jovem pop star preso em sua jaula, e feliz por isso, vamos ouvi-lo". Ainda bem que eu fui aquele dia ao cine Libero Luxardo, ainda bem que eu escolhi assistir Tatuagem, ainda bem.